Autor: Diogo Barreiras

  • Carnaval 2026 e a Micro-História

    Os desfiles de Carnaval são uma peça importante no descobrimento e no ensinamento das pessoas e a cada ano que eu vejo os desfiles, mais esse contexto fica exposto na minha cabeça.

    É um local que, independente de você ter ou não conhecimento das coisas, você aprende algo.

    Pode ser na história do enredo, ou de algo agregado, ou até um conceito dito rapidamente num comentário da televisão, tudo isso acaba ensinando. É uma festa, mas com cultura. Isso, pra mim, é lindo.

    Dito isso, eu nunca tinha ouvido sobre micro-história até ver o desfile da Viradouro sobre o mestre Ciça.

    Micro-história é quando você pega uma pessoa comum do período histórico que você quer explicar e mostra a visão daquela pessoa e o impacto do período histórico naquela pessoa.

    Para mim, um amante de histórias e um escritor de escolha, é lindo ver esse conceito na prática e já meti na minha lista da amazon uma porrada desses livros para me aprofundar depois.

    Nos RPGs existe o conceito de NPCs, personagens que não são jogáveis e, geralmente, a história não roda ao redor deles. Num mundo de cultura construída ao redor de Jornadas de Herói complexas, muitas vezes perdemos microcosmos valiosos de outras jornadas de heróis que estão dentro do cotidiano dos NPCs.

    A Viradouro pinçou a história de Mestre Ciça pra falar sobre samba, origens e homenagear o batuque, fazendo homenagem ao mestre batuqueiro. O quanto também não podemos entender do todo através da visão de um único (ou únicos) personagens menores, que compõe uma peça num grande quebra-cabeça?

    Botar nos holofotes do contexto figuras centrais que vivem e dialogam o cotidiano, ta aí uma coisa que me agrada. Encaixar narrativas de Jornadas do Herói no cotidiano, também me agrada. Ultimamente a cultura é muito voltada para grandes salvações e reviravoltas. O mundo está sempre em risco.

    Mas e o bairro? E o estado? E a vizinhança? Os pequenos microcosmos que constroem o mundo são mais importantes que tentar fazer uma teoria unificada para o mundo.

    O micro, o que temos contato, para ser vivido e contado. E o que entendermos do macro nesse trajeto, tá bom.

  • Sobre atenção constante

    Um dos lugares mais legais que fui na Coréia do Sul foi um bar com vários aparelhos e discos de vinil, uma biblioteca imensa, que a proposta era pegar os vinis, sentar pra tomar algo — fomos de chopp, mas tinha uma galera no chá e no café — e ficar ouvindo o final.

    Duas poltronas confortáveis.

    Uma mesa baixa, com um aparelho de vinil no centro e dois fones absurdos.

    Paredes lotadas de discos de vinil. Separados por estilos e uma parede inteira para você descobrir coisas novas.

    Um cardápio só de bebidas e petiscos tipo amendoim e biscoitos.

    O objetivo é sentar, escolher uns vinis, tomar sua cerveja e ficar ouvindo disco.

    Como estava com minha noiva, a experiência foi ficar ouvindo a música, tomando chopp e só.

    Nesse tipo de ambiente você até fica desencorajado de pegar o celular. A única vez que peguei foi pra anotar algumas ideias que passaram pela cabeça.

    Passar por esse lugar me trouxe algumas reflexões…

    1. Como faz falta um lugar assim no Brasil. Eu tenho um cantinho de leitura aqui em casa, mas é diferente. É um terceiro lugar, o que te faz ficar muito menos propenso a se perder em outras coisas.
    2. Como a gente passou a consumir música (e outros conteúdos) de forma tão fragmentada que é até estranho perceber o quanto existia de qualidade e criatividade em montar um álbum! Antigamente se montava um produto coeso. Agora virou lógica de lançamento a todo instante, sem construir uma obra de fato, mas sim pedaços.
    3. Como a atenção constante em algo nos conecta com algo dentro de nós e como a gente tem perdido essa capacidade de se conectar. No primeiro disco (foi do Queen), foi difícil prestar atenção sem ficar pegando no celular pra ver a hora. Com o tempo fomos nos acostumando. Estamos tão focados em consumir pequenas pílulas, que quando nossa atenção é necessária, a gente perde o costume.

    Atenção constante e foco no consumo, foram os melhores aprendizados. Foi uma experiência tão boa que é até difícil não mudar a cabeça de como consumimos as coisas.