Tag: fevereiro

  • Sobre atenção

    Atenção é a capacidade de manter algo diante da mente, pois a inclinação natural da atenção é ser fugaz. – Definição de William James em The Principles of Psychology.

    Embora a tendência natural do pensamento seja exatamente o contrário, a atenção deve se manter estrita ao objeto de foco até que finalmente seja completada, assim se manterá com facilidade. Esse esforço de atenção é o ato fundamental da vontade.

    Manter a atenção e foco vai ser uma das outras grandes habilidades a serem desenvolvidas no próximo século.

    É uma batalha entre design e algoritmo contra o ser humano, em sua essência.

    Diferente do que achamos, atenção é uma luta constante de disciplina, de manter a mente atenta a um único e fixo ponto o tempo todo.

    Escrever essas linhas, por exemplo, me faz manter a atenção. Eu quero, a cada pausa, abrir uma nova aba com meu email, ou ver rapidamente o Twitter.

    A repetição cria programação. E, na busca da atenção, é de extrema importância que repitamos o processo, com constância, do controle da nossa atenção e foco.

    Sem isso, não vamos conseguir nos concentrar em nada. Precisamos definir, 10 minutos por dia, pouco a pouco, ganhar o controle novamente sobre a nossa vontade. E, dominando a nossa vontade, conseguiremos controlar nós mesmos e nossa atenção novamente.

    Podemos fazer isso sem abandonar a existência social das redes. Podemos continuar usando tiktok, Instagram, mas conscientes de seu uso.

    Não vamos cair mais nas armadilhas de estímulos construídos fora de nós. Limitaremos a influência externa aos nossos pensamentos.

    Tudo isso parte da disciplina e da atenção constante.

    Precisamos treinar a atenção, igual treinamos para academia ou para ser criativos.

  • Empatia e Extrapolação

    Nós, seres humanos, temos dois superpoderes em relação as IAs.

    O primeiro é a capacidade de ter Empatia.

    Inovação pelo Design vem de achar o que as pessoas valorizam, o que é significativo para elas, e depois encaixar tecnologia e negócios. Isso é ter empatia. Isso é se botar no lugar do outro.

    O segundo é a capacidade de extrapolar.

    As máquinas são boas de interpolar.

    Interpolação e extrapolação são métodos de estimativa baseados em dados existentes. A 
    interpolação calcula valores desconhecidos dentro do intervalo de dados conhecidos.

    A extrapolação estima valores fora do intervalo conhecido (antes ou depois), o que envolve maior incerteza.
    A máquina lida bem com dados e pensar sobre aqueles dados que já existem. Pensar “fora da caixa” e ser criativa fora dos frameworks e estruturas habituais, só um ser humano.


  • Carnaval 2026 e a Micro-História

    Os desfiles de Carnaval são uma peça importante no descobrimento e no ensinamento das pessoas e a cada ano que eu vejo os desfiles, mais esse contexto fica exposto na minha cabeça.

    É um local que, independente de você ter ou não conhecimento das coisas, você aprende algo.

    Pode ser na história do enredo, ou de algo agregado, ou até um conceito dito rapidamente num comentário da televisão, tudo isso acaba ensinando. É uma festa, mas com cultura. Isso, pra mim, é lindo.

    Dito isso, eu nunca tinha ouvido sobre micro-história até ver o desfile da Viradouro sobre o mestre Ciça.

    Micro-história é quando você pega uma pessoa comum do período histórico que você quer explicar e mostra a visão daquela pessoa e o impacto do período histórico naquela pessoa.

    Para mim, um amante de histórias e um escritor de escolha, é lindo ver esse conceito na prática e já meti na minha lista da amazon uma porrada desses livros para me aprofundar depois.

    Nos RPGs existe o conceito de NPCs, personagens que não são jogáveis e, geralmente, a história não roda ao redor deles. Num mundo de cultura construída ao redor de Jornadas de Herói complexas, muitas vezes perdemos microcosmos valiosos de outras jornadas de heróis que estão dentro do cotidiano dos NPCs.

    A Viradouro pinçou a história de Mestre Ciça pra falar sobre samba, origens e homenagear o batuque, fazendo homenagem ao mestre batuqueiro. O quanto também não podemos entender do todo através da visão de um único (ou únicos) personagens menores, que compõe uma peça num grande quebra-cabeça?

    Botar nos holofotes do contexto figuras centrais que vivem e dialogam o cotidiano, ta aí uma coisa que me agrada. Encaixar narrativas de Jornadas do Herói no cotidiano, também me agrada. Ultimamente a cultura é muito voltada para grandes salvações e reviravoltas. O mundo está sempre em risco.

    Mas e o bairro? E o estado? E a vizinhança? Os pequenos microcosmos que constroem o mundo são mais importantes que tentar fazer uma teoria unificada para o mundo.

    O micro, o que temos contato, para ser vivido e contado. E o que entendermos do macro nesse trajeto, tá bom.

  • Sobre atenção constante

    Um dos lugares mais legais que fui na Coréia do Sul foi um bar com vários aparelhos e discos de vinil, uma biblioteca imensa, que a proposta era pegar os vinis, sentar pra tomar algo — fomos de chopp, mas tinha uma galera no chá e no café — e ficar ouvindo o final.

    Duas poltronas confortáveis.

    Uma mesa baixa, com um aparelho de vinil no centro e dois fones absurdos.

    Paredes lotadas de discos de vinil. Separados por estilos e uma parede inteira para você descobrir coisas novas.

    Um cardápio só de bebidas e petiscos tipo amendoim e biscoitos.

    O objetivo é sentar, escolher uns vinis, tomar sua cerveja e ficar ouvindo disco.

    Como estava com minha noiva, a experiência foi ficar ouvindo a música, tomando chopp e só.

    Nesse tipo de ambiente você até fica desencorajado de pegar o celular. A única vez que peguei foi pra anotar algumas ideias que passaram pela cabeça.

    Passar por esse lugar me trouxe algumas reflexões…

    1. Como faz falta um lugar assim no Brasil. Eu tenho um cantinho de leitura aqui em casa, mas é diferente. É um terceiro lugar, o que te faz ficar muito menos propenso a se perder em outras coisas.
    2. Como a gente passou a consumir música (e outros conteúdos) de forma tão fragmentada que é até estranho perceber o quanto existia de qualidade e criatividade em montar um álbum! Antigamente se montava um produto coeso. Agora virou lógica de lançamento a todo instante, sem construir uma obra de fato, mas sim pedaços.
    3. Como a atenção constante em algo nos conecta com algo dentro de nós e como a gente tem perdido essa capacidade de se conectar. No primeiro disco (foi do Queen), foi difícil prestar atenção sem ficar pegando no celular pra ver a hora. Com o tempo fomos nos acostumando. Estamos tão focados em consumir pequenas pílulas, que quando nossa atenção é necessária, a gente perde o costume.

    Atenção constante e foco no consumo, foram os melhores aprendizados. Foi uma experiência tão boa que é até difícil não mudar a cabeça de como consumimos as coisas.